Vorcaro antecipou viagem a Dubai antes de ser preso; mudança aconteceu após conversa com Moraes.

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Daniel Vorcaro antecipou para 17 de novembro de 2025 uma viagem ao exterior que, no planejamento inicial apresentado por sua defesa, previa saída do Brasil na noite do dia 18. A informação foi publicada inicialmente pelo UOL e confirmada pela Jovem Pan. Ele foi preso no próprio dia 17, quando tentava deixar o país.

O primeiro itinerário previa a decolagem do Aeroporto de Guarulhos às 23h10 do dia 18, com escala em Milão e chegada a Dubai no dia 20. No sábado (15), uma empresa de apoio a voos executivos ainda solicitava autorização para o pouso do avião de Vorcaro nos Emirados Árabes Unidos seguindo esse cronograma.

Naquele mesmo sábado, às 18h22, Vorcaro enviou uma mensagem ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, perguntou, segundo relatório da Polícia Federal com dados extraídos do celular do banqueiro.

Na manhã de segunda-feira (17), Vorcaro informou a dois servidores do Banco Central, em um grupo de WhatsApp, que estava alterando a programação. “A turma de fora, como ficou muito em cima pra confirmar, não irão conseguir mais essa quarta, infelizmente. Me pediram pra antecipar ida pra lá pra tentarmos fazer as assinaturas”, escreveu.

“Desta forma estou mudando a logística toda da transação, eu passo para vocês daqui a pouco”, acrescentou. Vorcaro atribuiu a mudança aos investidores estrangeiros envolvidos na negociação para a venda do Banco Master.

Ainda no dia 17, o banqueiro recebeu uma reserva no hotel Four Seasons, em Dubai, com a chegada antecipada do dia 20 para o dia 18. O plano de voo utilizado na tentativa de viagem naquele dia não consta entre os documentos apresentados pela defesa.

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal na noite de 17 de novembro, quando tentava embarcar para Dubai. Na manhã seguinte, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.

Grupo com servidores do Banco Central

O grupo no qual Vorcaro comunicou a mudança da viagem incluía Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto da área.

Segundo a Polícia Federal, os dois mantinham contato com Vorcaro e participaram de trocas de informações e revisões de documentos relacionados à situação do Master. Ambos foram posteriormente afastados dos cargos sob suspeita de terem recebido vantagens para auxiliar o banqueiro. As defesas contestam as acusações.

Entenda a investigação

O ministro André Mendonça retirou no dia 1º de setembro o sigilo de documentos da investigação que reúne registros da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O material apresenta mensagensencontros e negociações envolvendo o banqueiro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

O documento é uma Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A), elaborada pela Polícia Federal (PF) a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro, apreendido durante uma operação. O relatório foi encaminhado a Mendonça no último dia 27 e analisa, entre outros pontos, contatos do banqueiro com pessoas ligadas a uma suposta rede de influência.

Segundo a PF, o celular de Vorcaro tinha quatro registros diferentes para o mesmo número de telefone: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. O número foi compartilhado com Vorcaro por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, em 26 de dezembro de 2023.

A investigação também encontrou mensagens encaminhadas por Vorcaro ao contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. De acordo com o relatório, o banqueiro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp.

A PF cruzou os horários dos registros e identificou que, em alguns casos, o envio da mensagem ocorria poucos segundos depois da captura de tela. O número associado ao contato foi confirmado a partir dos dados extraídos do aparelho.

Contrato de R$ 108 milhões

O relatório detalha também a negociação de um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, ligado a Viviane Barci de Moraes.

Em 11 de janeiro de 2024, Viviane enviou a Vorcaro uma minuta de prestação de serviços. A mensagem dizia: “Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”.

A PF identificou que a última alteração havia sido feita pelo usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, às 16h30 daquele dia.

Uma nova versão do documento foi posteriormente enviada a Vorcaro. O relatório aponta novamente a presença do usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação.

As tratativas também aparecem em mensagens entre Fábio Faria e Vorcaro. Em 15 de janeiro de 2024, Faria perguntou ao banqueiro: “Respondeu a Vivi”. Vorcaro respondeu perguntando: “fechou 3 anos”. Faria afirmou que havia tratado de quatro anos, mas que “pode fazer 3”.

O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões, totalizando R$ 108 milhões.

Segundo contrato

A investigação também encontrou um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025, entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações.

Nas tratativas, o advogado de Vorcaro apresentou duas alternativas para a transferência de ativos. A primeira previa a entrega dos bens e a transferência das quotas, com possibilidade de recompra por R$ 1 caso o contrato de honorários não fosse cumprido. A segunda condicionava a transferência das quotas ao cumprimento do contrato.

Vorcaro respondeu: “Opção 1 não é o negócio” e, em seguida, afirmou: “Os ativos são deles… já”.

Entre os ativos estavam cotas relacionadas a um avião Legacy 650 e a um helicóptero EC 155 B1. Segundo a documentação analisada pela PF, a cota do avião custava US$ 5.512.951,89, enquanto a do helicóptero tinha valor de US$ 1.335.014,01.

Em julho de 2025, há registros de pagamentos relacionados ao escritório. Em 14 de julho, foi registrado um pagamento de R$ 3.422.268,14. Em 24 de julho, uma funcionária informou a Vorcaro que havia uma cobrança de R$ 22.815.120,95 referente a uma fatura do escritório em nome da Viking.

Encontros entre Moraes e Vorcaro

Além das negociações envolvendo o escritório, o relatório apresenta registros de encontros entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.

Em dezembro de 2023, Fábio Faria compartilhou com Vorcaro o contato de Moraes. No dia seguinte, os dois trataram de um almoço de “Alex” em Campos do Jordão. Vorcaro enviou a localização do hotel onde o encontro ocorreria e orientou funcionários sobre a recepção.

O material também registra episódios posteriores. Em 19 de março de 2025, Vorcaro escreveu a uma pessoa próxima que estava “com o Ministro”. Pouco depois, informou a outra pessoa que estava “com Moraes aqui”. Na madrugada seguinte, relatou que outras pessoas haviam chegado para “falarem com Alexandre”.

Em 19 de abril, Vorcaro disse que estava “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”. Dez dias depois, afirmou novamente que estava com “Alexandre”.

Mensagens sobre a investigação

O relatório também analisa mensagens enviadas por Vorcaro ao contato associado a Moraes em outubro e novembro de 2025.

Segundo a PF, as mensagens foram produzidas no aplicativo de notascapturadas em imagens e enviadas pelo WhatsApp. Os investigadores identificaram que o destinatário estava salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Em uma das mensagens, registrada em 30 de outubro, Vorcaro tratou da necessidade de interlocução com autoridades diante do avanço das investigações. Em outros registros, o banqueiro perguntou sobre possíveis medidas judiciais e sobre a possibilidade de adiamento de ações contra ele.

A PF também encontrou uma mensagem em que Vorcaro questionou: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”. Em seguida, perguntou: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”

Em outro registro, de 15 de novembro, dois dias antes de sua prisão, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda tenho que estar fora?”

Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que Alexandre de Moraes analisou o primeiro contrato a pedido do setor de compliance, para verificar a existência de eventual impedimento legal. Segundo a manifestação, não havia previsão de atuação do escritório no STF em processos relacionados ao Banco Master e, por isso, o contrato foi firmado e os serviços foram prestados.

Fonte: Jovem Pan.

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